A arrogância da imprensa e o despreparo de nossos líderes

Hoje pela manhã, como sempre faço, estava tomando meu café assistindo ao noticiário. Eis que o telejornal local mostra uma matéria de uma agressão sofrida por sua equipe de reportagem na beira-rio. Na matéria, aparece a imagem de um homem segurando uma mulher, tentando contê-la. O repórter diz que era uma briga e, supostamente achando que era um grande furo, foi se meter na história. Não se consegue ouvir, mas a mulher – visivelmente alterada – deixa claro que não quer ser entrevistada. Ora, é um direito seu e pelo que se mostra ela não aparenta estar cometendo nenhum crime, nem colocando a sociedade em risco. Mas o repórter insiste e a mulher toma o microfone e agride o repórter.

Bom, nada justifica a agressão da mulher contra o repórter. Ainda que pudesse estar drogada, como insinua a matéria. O correto seria então o agredido chamar a PM e registrar a ocorrência na delegacia. Mas a questão não é exatamente essa.

O grande erro de nós jornalistas é nos acharmos com mais direitos que os outros. Um microfone, um gravador ou uma câmera não nos dá alvará para fazermos o que quisermos. Houve uma briga, o repórter quis cobrir, mas a mulher não queria ser entrevistada ou filmada. É exatamente o que acontece todos os dias nos programas policiais: a exposição de quem não foi julgado e, portanto, não pode ser considerado criminoso. A matéria poderia até ser feita sem precisar desses recursos. Mas a questão também ainda não é exatamente essa.

Logo ao chegar ao trabalho e checar os emails e redes sociais, já havia uma nota de repúdio da Associação de Imprensa da Região Tocantina (Airt). Li, mas quase não acreditei no que meus olhos viam. Logo na terceira linha está escrito sobre os moradores de rua: “eles contaminam a cidade”.  Uma entidade de classe, de jornalistas, acha que os moradores de rua “contaminam” uma cidade. Vamos em frente e vejamos outro trecho: “Em meio à tanta desordem e desrespeito junto a sociedade, é que A Associação de Imprensa da Região Tocantina – AIRT, se posiciona repudiando o ato e pede atitude das autoridades que garantam a liberdade de Imprensa” (sic). Que “tanta desordem” é essa? Uma briga de moradores de rua? E em que momento a liberdade de imprensa foi ameaçada? No meu entendimento, não passa de preconceito. Os moradores de rua, por diversos motivos, estão em situação de fragilidade social. Não contaminam ninguém. A nota acerta em alertar o Estado – aqui no caso a prefeitura – e cobrar auxílio a essas pessoas.

Mas meu espanto não pára por aí. Um colega jornalista comentou a nota numa rede social, apoiando o repúdio. Até aí tudo bem, tudo normal. Seria. Veja o que disse o coleguinha: “ Nos lugares onde se assentam essas pessoas, nem capim nasce mais…”. Mais uma clara demonstração de preconceito, de despreparo para lidar com os problemas sociais. O comentário engrossa o coro dos que vêem nossos pobres e desamparados como doenças.

Nós, jornalistas, temos que aprender que o tal quarto poder é um mito, uma inverdade, uma ilusão arrogante. O mundo, as pessoas, não estão aos nossos pés, nem sob nosso julgamento.  Nós devemos nos colocar em nossos lugares. Nosso trabalho é levar a informação à sociedade e não interferir nela.

12 thoughts on “A arrogância da imprensa e o despreparo de nossos líderes

  1. Parabéns pela atitude Marcos. Nós, jornalistas, precisamos entender que existem limites e que somos obrigados, até por uma questão ética mesmo, a respeitar as pessoas, não importa quem seja, o que fez ou deixou e fazer, para aonde vai ou de onde vem. É preciso conhecer e respeitar limites, sim.

    Hemerson Pinto.

  2. Acho interessantíssimo (para não usar outros termos) como alguém (ns) se compromete a informar a sociedade, transmitir notícias, comunicar de forma geral, tão carregado de preconceitos e ignorância. Como resultado, temos matérias recheadas de expressões ridículas, que propagam esse sentimento de autoridade e prioridade dos que compõem a imprensa diante dos que já sofrem esse processo de opressão por tantos lados. A classe é tão preparada na cidade e região (para não ampliar a situação)! É só observar a própria AIRT ou o SINDIJORI. Um salve aos que escapam desse processo.

  3. Parabéns Marcos. Pudera essa sua visão fosse a regra no jornalismo brasileiro, mas sabemos que, Infelizmente é a exceção, principalmente quando se trata do jornalismo local.

  4. até que enfim alguem escreveu a verdade sobre esse tipo de coisa. Trabalho na Imprensa e no meio jornalistico mas nunca usei de ‘camera ou influencia’[qual mesmo? sic] pra conseguir algo ou querer obrigar algum poder ou entidade a fazer minha vontade ou o que eu achava que estivesse me prejudicando. Interessante tambem é destacar que existem vários programas na SEDES [secretaria de desenvolvimento social] que dão comida, abrigo, aconselhamento e qualificação pra quem é morador de rua ou que está abaixo da linha de pobreza…agora, VÁ OFERECER A ALGUM DELES…DÁ É BRIGA. Não se vê mais menores nas ruas pq os pais RECEBEM pra manter os mesmos nas escolas ou em programas sociais, já os adultos não querem de jeito nenhum e preferem viver nas crackolandias ou no meio da rua ‘dizendo’ que tão vigiando carros, qdo na verdade todos os dias ameaçam as pessoas e riscam os carros. Isso é um problema de segurança publica e deve ser resolvido é pela policia ou pelo MP. Pq nenhum desses faz nada? Virou moda isso de qualquer coisa que aconteça [independendte de estar certo ou errado] o corporativismo das classes aparecer e ninguem parar 1 segundo pra pensar se está certo ou errado. Sou a favor da ajuda e do apoio no caso de abusos ou exageros que prejudiquem nosssa classe, mas nessa caso, foi um tiro no pé!

  5. Marcos, essa tua postura é a que cabe ao jornalista orgânico, comprometido com a história e a justiça social. Você dignifica a nossa profissão.

  6. A você meu caro colega Marcos Franco, posso me dirigir como colega de profissão. Você tem o princípio da ética que norteia o nosso trabalho. No mais, tenho vergonha de dizer que sou jornalista que mora em Imperatriz, onde a classe nunca poderá se equiparar a estes moradores de rua que são muito mais éticos em suas ações.
    http://www.revistanortenordeste.com.br
    lidioalmeida1.blogspot.com

  7. Infelizmente o quarto poder Marco sempre esteve a serviço de uma classe (a elite). Seria mais oportuno mostrar porque realmente existem moradores de rua. Mais isto fere o brio daqueles que comando nosso estado e cidade. Parabéns!

  8. Em virtude da chamada “liberdade de imprensa” se comentem desmandos de ordem até mesmo maior. E a liberdade de imagem das pessoas?? A coação, o julgamento pre ordenado pela sociedade em virtude de materias tendeciosas não são tão graves quanto a possivel “afronta à liberdade de imprensa”???
    Não existe direito absoluto, nem mesmo o a informação. Por mais que esse seja um direito fundamental assim o é também a dignidade das pessoas.
    Lembro da exaltação que foi criada pelos meios de comunicação marrons à época da criação da lei que regulamentava (veja bem regulamentava) a atividade de imprensa proposta pelo PT. Acreditar que o direito à imprensa livre seja uma imprensa sem responsabilidade por seus atos é o mesmo que autorizar alguém a cometer desmandos de qualquer ordem.

  9. Por certo, e não se prende a essa fobia e falácia dessa mídia, tem a outra e paga com nosso dinheiro, que toma partido de quem lhe paga.

    O Jornalismo devria ser sacerdócio, não arrogância e partidarismo, falso poder, e literalmente burrice evolucional.

    Vamos nós que vemos por um lado, e as mídias por outro.

    O reporter não tem nome, ou não deveria ter, para que não faça essas asneiras.
    Mas, na maiora mal formada, certamente não pesquisam nem história, muito menos sociologia, mal sabem o sentido de direito huamnos, cultura universal e nem sonham com os deveres, que vem antes de qualquer direito.

    Não, definitivamente um reporter não é nada mais que que qualquer outro ser humano, bem como também não é superior nenhum presidente, senador, qualqueer doutor… hoje superior só o inescrupuloso, ou bandido armado que impôe a morte.

    Isto devido o individualismo, empreguismo, encostos e máquina pública clamando para o fim da produção e do outro… principalmete da boa informação translúcida… cristalina como a água pura.

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